Parado na Avenida Itavuvu, todos os dias ao mesmo horário, considero deixar o emprego. Açoitado pela pobreza, também sou veado, também sou devasso, e carente. Herdei de meu pai a fronte de ferro. O tesão por rola foi Deus. E só Deus sabe quantas horas perco a pensar em carinho de pica, suor de macho, fartos fluidos. “Sossega, meu filho”.
Tem dias que a cidade faz de você uma piada para si mesmo. Você cruza com o rapaz que pega o fretado na esquina, um cara de moto esperando o sinal, pensa em núpcias, luas-de-mel, pra quê tanto homem, Senhor? A marreta bate numa construção ao fundo. Pá. Pá. Pá. A marreta bate na sua memória, vibra pelo seu corpo. Uma meteção louca o dia inteiro. Você entra no supermercado para comprar o quê, bananas, claro, e percebe os olhares da jovem no caixa. Na semana seguinte a mesma coisa. No sábado, você adiciona a linguiça ao carrinho. Esse açougueiro é novo? Nunca o vi antes. Flagro a tatuagem de cobra no antebraço, visível enquanto maneja a peça. Essa?, ele pergunta. Essa mesma. No caixa, a mulher jovem sorri. Puxa assunto. “Ele é solteiro?”, pergunto a ela. Habemus assunto.
Fui batizado na Paróquia Santíssima Trindade, em Tietê, interior de São Paulo, circunscrita à Arquidiocese de Sorocaba. Não passei pela catequese. Ainda estou na visão periférica de Deus. Ainda não o olhei de frente. Mas sinto no corpo seus desígnios. Ninguém os entende a não ser eu. Me mudo para a cidade maior aos 20 anos. Minha mãe morre de câncer. Quanto ódio!
Parado na Avenida Itavuvu, se eu atravessar a rua antes daquele ônibus, um homem vai chegar e mudar minha vida. Ele não se chama Jesus mas também tem pênis firme e disciplinador. Ele está disposto a apanhar comigo à noite, de mão dada e tudo, no caminho de volta pra casa. No posto de gasolina depois do mercado, mais de meia dúzia de homens suam como em lençóis à noite na cama. Dentro dos carros, suam como em vapor de chuveiro estalando.
Eu quero foder esses filhos da puta mesmo nessa conjuntura. Eu quero uma foda bruta, uma briga justa, dois homens suados na luta — com pelos, com ódio, com leite, com fogo, incêndio, mas se eu falar assim, eu sei que assusta, eu sei que assusta.
Deus há de me enviar o homem que quero e preciso, o homem que vai me fazer gemer por anos e anos. O homem que vai me cansar tanto a ponto de eu me levantar para buscar um copo d’água. O homem que vai tirar a vontade que sinto às vezes de me enfiar na frente desse ônibus.
Parado na Avenida Itavuvu, dá tempo de tudo e mais um pouco acontecer.