Obediente como jurei ser, faço o que ele manda.
João morde minha bunda, lambe a entrada do meu ânus e coloca a língua dentro. Meu corpo se desmorona. Ele cospe e coloca um dedo. Me masturba de leve enquanto aumenta o vai-e-vem. Eu me contorço sobre o lençol. Penetra dois dedos e leva a boca à minha bunda. Tira os dedos de dentro de mim, coloca a língua mais uma vez. Meus punhos estão cerrados. Tira a língua, deita-se sobre minhas costas, sinto de novo a dor insuportável. Novas posições, novas dores, é o que parece. Peço para que ele tire, mas ele não tira, apenas para e diz “shhh”, beijando meus ombros. Minhas mãos tentam empurrar seu quadril, mas ele é mais forte e mais pesado, está esparramado sobre mim, com o pau preso em minhas nádegas, dentro bem, bem fundo. Comprimo as nádegas, aperto e me contorço. Ele geme. Fica mais um momento parado e vai forçando aos poucos. Já não luto mais, pelo contrário. Ele me abraça, força o rosto contra o meu, sua garganta emite um rosnado como se fosse um lobo tomando controle da caça. Mete devagar, a dor continua, mas agora há prazer também. Mete mais, mais forte, mais rápido. Meu “ai” é longo e escorre da minha língua antes que se forme direito. Minhas mãos não brigam mais com seu quadril. Quase consigo ver nós dois, embrulhados um no outro, na cama, no mesmo movimento, indo e vindo, o barulho de sua virilha batendo na minha bunda. Eu peço mais e ele diz que vai me comer até o dia seguinte, que vai passar a noite me comendo, que meu cu é gostoso, apertado e quente. A letargia que se espalha a partir de algum ponto dentro de mim, o ponto que seu pênis pressiona, me faz revirar os olhos, gemer o incompreensível de uma mente extasiada, ser controlado por um tremor interno, um chacoalhão que parece mais próximo de explodir, mas que não explode, cresce, cresce a cada metida, a cada vez que o pau de João atinge o fundo.
Ele sai de mim, tira a camisinha e goza bem no meio da minha bunda. Sinto o caldo grosso do esperma escorrer. Ergue o tronco e fica de joelhos na cama. Nos observamos, suados, sorrindo.
Por um tempo que não sei precisar, permanecemos deitados. Falamos sobre o futuro. Falamos de mais coisas. Até acabarem-se os assuntos.
João se levanta, pega outra camisinha e me puxa pela mão para que eu o acompanhe. Nos beijamos até o banheiro. Ele não acende a luz. Liga o chuveiro. Me abraça por trás e me encosta no azulejo da parede. A água morna cai entre nós. Ele veste a camisinha e entra em mim novamente. João mete com firmeza. No espaço de uma metida e outra eu levo minha bunda de encontro ao seu pau. Ele rebola ofegante ao pé do meu ouvido. Me abraça cada vez mais forte. Vou gozar. No meio de um gemido, ele se dobra sobre minhas costas. Meu gozo cai de meu pênis duro e suspenso, sem que eu ao menos o toque. Meu cu se contrai e João solta um gemido. Seu pênis lá dentro goza dando algumas estocadas. João tem três ou quatro espasmos consecutivos antes que possa sair de mim e tirar a camisinha lambuzada.
Meu homem. Foi a primeira vez que eu disse isso. Só depois, no entanto, que eu fui ter a certeza de que ele era bom e que tinha um amor bom. E então eu soube que, justamente por isso, seria eu o traidor, aquele que iria embora.
*
Moramos juntos agora. Quer dizer, já faz um tempo. Num apartamento de verdade. Ele se formou em Letras e dá aulas numa escola aqui do bairro e ninguém vê problemas em suas tatuagens, nem em seus alargadores — as crianças, inclusive, dizem gostar bastante.
Nunca duvidei da fidelidade de João. Tampouco reivindiquei-a. Eis minha prerrogativa. Mas a mim ele chega dizendo:
“Eu não consigo mais dormir sem você, parece que me falta algo, sabe?”
E meu peito se aperta. Estamos num ponto do relacionamento em que não há apenas nós dois, mas também meus pais, os pais dele, contas a pagar, viagens parceladas no cartão. O ponto da perfeita sintonia. Sinto que posso chegar em casa e contar-lhe que estou apaixonado por uma outra pessoa, tão amigos parecemos ser agora. De novo estou às voltas do que posso ou não deixá-lo saber, com medo do que ele pode pensar de mim.
Ele diz “eu te amo mais que tudo” e “nunca sobreviveria sem você” com mais frequência do que eu posso lidar. Eu respondo o mesmo, confesso, mas mal pronuncio tais frases e já sou capaz de vê-las boiando na superfície. Enquanto também estivermos na superfície, tudo correrá bem, eu penso, observando-o dormir. Se um de nós precisar mergulhar, entretanto, essas e outras frases deverão ser deixadas para trás. Digo, caso um dia, um de nós — ou nós dois, quem sabe? —, precise mergulhar.
