[O conto a seguir foi escrito em 2015 e publicado originalmente no site Kinguys sob o título “O Entregador de Água”. Depois, após sérias edições, publicado no Wattpad já sob o nome atual. Mais edições feitas, é agora publicado neste site.]
Meu homem é um homem bom com um amor bom.
Ele se chama João Felipe Belizzaro de Souza e se deita todas as noites ao meu lado com uma perna jogada sobre minha cintura. Diz que precisa de mim para dormir, que se acostumou a ter o corpo enroscado ao meu, mas não é verdade. Muita coisa não é verdade entre um casal, é o que aprendi.
Tenho acordado de madrugada com um sentimento de urgência e culpa, como se eu tivesse me esquecido de fazer algo e agora talvez fosse tarde demais. Quando recobro a lucidez, e minha respiração se acalma, levanto para tomar um copo d’água ou olhar o céu lá fora. João não percebe minha ausência. Às vezes penso que poderia tramar o que quer que fosse e ele nem mudaria de posição.
*
João entregava água na empresa em que trabalho. Foi assim que nos conhecemos. Eu tinha 18 anos e havia acabado de me mudar para Sorocaba, vindo de não muito longe, Tietê, uma cidade pequeníssima, entediante e sem estrutura para que eu pudesse ser tão gay quanto planejava.
Eu trabalhava na recepção com Luana, nós dois éramos assistentes administrativos. Mas diferente dela, que fazia o que era de fato importante, eu ficava com as tarefas sórdidas, típicas de um novato, como pedir marmita para todo mundo, ir até os Correios, enfrentar filas em bancos, marcar veterinário para o cachorro de alguém… e ligar para João, quando os dois galões de água esvaziassem.
Nas primeiras vezes, observei em silêncio João entrando e saindo. Ele é mais ou menos da minha altura e, nessa época, tão magro quanto eu, embora claramente mais forte. Tem uma tatuagem no pescoço, uma frase que diz “thinking is my fighting” que eu li quando fiquei a seu lado, segurando o galão vazio enquanto ele usava os músculos com o cheio. Não é uma frase qualquer, eu pensei. Não é o afago na cabeça que as pessoas costumam tatuar ou escrever nas capas dos cadernos, nas redes sociais ― não era cafona. Foi Virginia Woolf quem disse isso, segundo o Google. Virginia Woolf, uma escritora inglesa do século XX. Mais tatuagens: nos braços, nas mãos, pequenos símbolos nos dedos. Ilhas de figuras sobre o mar de pele morena. Frase, porém, só essa mesmo. João sorria bastante, a não ser quando fazia força e seu maxilar enrijecia, as sobrancelhas quase se unindo enquanto a mão espalmada encaixava com precisão a cabeça de plástico no suporte. Quando vinha à tarde, sua testa e nuca suavam, seu peito engrandecia na busca do ar e suas mãos descansavam na cintura de maneira descontraída; o corpo completamente alheio ao efeito que exercia sobre mim.
Meus colegas me olhavam diferente porque já tinham me entendido. Não puderam evitar, eu acho. Tão fácil quando ligar um ponto no outro. Embora não muito afeminado — eu me esforçava bastante — nem fora do armário, eu não interagia nas conversas sobre futebol, mulheres e carros.
Me entenderem, porém, não bastava. Queriam ouvir de minha boca.
“E o final de semana, como foi? Saiu com a namorada?”
Novo demais, medroso demais para uma boa resposta, eu sorria.
Era sábado, e assim que João cruzou a porta após eu ter lhe entregado o dinheiro, Luana disse que podia ouvir meu coração apaixonado bater. Seu tom foi de inteiro deboche. O riso abafado. Uma encruzilhada no meu caminho: eu podia rejeitar seu comentário e me fechar numa concha ou podia aliviar meus ombros cansados.
“Será que ele também ouve?”, perguntei.
*
Na próxima vez em que veio, João me olhou de maneira fugidia, quase hesitante. Seu sorriso era menor e sua cabeça inclinava levemente para baixo.
“Ele ouviu!”, eu disse, rindo, mas extremamente nervoso. “Ele sabe!”
Luana se divertia, dizia coisas como “e daí?” ou “não tem como você saber.”
Mas eu sabia. Porque essa é uma coisa que nós sabemos. Nós, homens que se apaixonam por homens. Sabemos quando saímos da zona de masculinidade permitida e quando o homem à nossa frente também sai dela.
Um mês depois, quando aparentemente tanto eu quanto ele tínhamos superado nossa timidez, já nos olhavámos sem ressalvas, sorrindo no final de qualquer pergunta ou resposta.
“Onde tá a Luana?”, perguntou João, após olhar em volta e perceber que estava sozinho comigo.
“Tá na sala de reunião, quinta é dia de analisar as planilhas”, entreguei-lhe o galão vazio e abri a gaveta para pegar o dinheiro.
Ele aproveitou o curto silêncio para dizer o que disse.
“Que barulho é esse?”, tocou a orelha com o indicador. Tentei prestar atenção em qualquer som, mas nada fazia barulho. “É seu coração apaixonado?”
Sabia que tinha ouvido!, pensei. Está zombando de mim.
Encarei seu olhar me sentindo na beira de um precipício. Não fui capaz de decifrá-lo, mas desconfiei de que aquele sorriso não era uma mão estendida, não. Um passo, e eu caio.
“É”, eu disse, endireitando a coluna. Não caí.
Deliciado foi como ele me pareceu, pois o sorriso vago e distante agora tomava a forma de um desafio aceito. Sem dizer qualquer coisa, João pegou o dinheiro e foi embora.